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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O que é tocar bem

Ou a escala de cada um

Para o ouvido de um pianista, o fundo é o pianíssimo silencioso, como o espaço é para o cego dos olhos. Ouvi, li superficialmente outro dia sobre a antimatéria necessária para a quebra da simetria, cuja descoberta rendeu o Prêmio Nobel àqueles físicos japoneses. A antimúsica seria, para mim, a exploração ao extremo da assimetria, nas buscas de simetrias, com o ouvido, tateante, que é o meu presente, e de cada um, neste ponto da nossa evolução. Pense-se em Sísifo, mas pense-se também em espiral, superação, raios de luz.

A verdade, por outro lado, é que a música ocidental é muito simétrica. Doze, oito, quatro, três, dois, maior, menor, justo, diminuto, aumentado, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, nona, décima, décima-primeira, décima-terceira, só doze intervalos possíveis no piano.

O que faço na improvisação: aproveitando que na assimetria está a simetria negativa, o avesso não obstante musical, é com ela que eu jogo lógico, brinco, especulo, espelho, me reflito e me comunico. O natural, real e físico nela é a acústica.

Bach dizia que qualquer pessoa poderia criar e tocar tudo o que ele fez, se se dedicasse como ele se dedicava à arte de tocar, compor e improvisar. Eu não dei para isso. Estou consciente de que as diferentes capacidades musicais entre os músicos formam um conjunto de interstícios e planos que são os estados da arte de cada um, infinitamente plural e gasoso como o ar da manhã de sol que a chuva acabou de limpar, com gotas de água brilhando nas folhagens. Estou aí, suspenso nesse meio. Nisso sou apenas um buscador, somos apenas buscadores, como qualquer uma, e cada um, com a sua dança, o seu movimento real.

Comecemos pela dinânima, do fundo, piano, pianíssimo.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Meu nobre amigo

Vou aproveitar para contar uma história. Tenho um amigo músico tão talentoso, mas tão talentoso, que é a pessoa mais talentosa que conheci em toda a minha vida. Costumávamos fazer uma brincadeira musical insólita, que me encantou e convenceu da grande capacidade de percepção auditiva dele. Consistia no seguinte: eu tocava acordes de dez notas no piano. Eram acordes que "não existiam". E toma dissonância! E o Christian von Richthofen, este o seu nome, olhando pela janela, nunca para o teclado, cantava e nomeava nota por nota o que eu acabara de tocar. Naturalmente que eu fazia cachos de tons, pegava os trítonos, os adjacentes, os embolados, procurando sempre os mais descasados possíveis, variava os intervalos, num aleatório intencional. Eram os sons mais unheard, mais unheard-of que você possa imaginar. Ele matava todos, não escapava um.

Ainda não apresentei a ele o meu teminha allegro, que é dedicado a um amigo professor de música aqui de Bauru, George Vidal, grande e verdadeiro pedagogo, me thinks, que tem uma escola de música chamada Clave de Sol. Gostaria muito de ouvir o Christian entoando direitinho e afinadinho essa minha linhinha de minha lavra e autoria de que tenho orgulho. É tão intelectual, tão tratadística, que eu não sei cantar, repito, só sei tocar no piano, e improvisar sobre ela. Afinal, os talentos também são distribuídos desigualmente entre os músicos. Ô teminha sem-vergonha!